20/09/2013

Como surgiu a teoria de que o ouro veio do espaço?

Uma das versões é de que metal teria chegado à Terra por meio de chuvas de meteoritos; hipótese, no entanto, é contestada.


(BBC/G1) A teoria de que o ouro veio do espaço parece coisa de ficção científica, mas a tese ganhou força com o tempo e hoje é bem aceita no campo das geociências. Mas de onde essa hipótese bizarra surgiu?

Para os chefes tribais da América pré-colombiana, o material amarelo que eles encontraram brilhando no fundo dos rios ou enterrado sob o solo rochoso capturava o poder do deus Sol. Eles se vestiam com armaduras feitas a partir desse metal "encantado", acreditando que assim estariam protegidos.

Mas os povos pré-colombianos se enganaram. O ouro, um metal relativamente macio, não foi páreo para o ferro dos espanhóis. Ainda assim, os nativos das Américas teriam hoje razões de sobra para se orgulhar daquilo em que acreditavam.

A teoria de que o ouro veio do espaço ganhou aceitação nas últimas décadas pela maioria dos cientistas que buscavam uma explicação para a abundância do metal na Terra. Atualmente, há apenas 1,3 grama de ouro por 1 mil toneladas de outros materiais na crosta do planeta (casca rochosa que tem cerca de 40 km de espessura), mas essa proporção ainda é alta considerando-se os padrões de formação terrestre.

Há dezenas de milhões de anos, a maior parte do ferro encontrado na superfície do planeta afundou do manto (camada logo abaixo da crosta), em direção o núcleo da Terra.

Ali, o ouro teria se misturado ao ferro e afundado junto com ele. Matthias Willbold, geólogo do Imperial College de Londres, compara o processo a gotas de vinagre no fundo de um prato repleto de azeite de oliva.

Meteoritos
Mas a explicação não foi o suficiente para calar os mais céticos. Os cientistas precisavam de uma resposta para explicar a abundância do ouro. Eles chegaram, então, à hipótese de que o metal teria chegado ao planeta por meio de uma chuva de meteoritos.

'A teoria é de que, depois do núcleo formado, houve uma chuva de meteoritos que atingiu a Terra', diz Willbold. 'Esses meteoritos continham uma quantidade de ouro considerável que preencheu o manto da Terra e a crosta continental.'

A ideia de que o ouro veio do espaço surgiu pela primeira vez após as missões espaciais Apollo à Lua na década de 1970. Os cientistas que examinaram amostras de rocha do manto da Lua descobriram muito menos irídio (um tipo de metal) e ouro nessa camada do que em amostras da superfície da própria Lua ou da crosta ou manto da Terra.

A teoria estabelecia que a Lua e a Terra teriam sido atingidas por meteoritos ricos em irídio, conhecido como condritos. Na Lua, eles teriam se espalhado pela superfície, enquanto na Terra, teriam alcançado o manto.

Essa hipótese tornou-se uma teoria fundamental no estudo das ciências planetárias. E também ajuda a explicar muitas outras anomalias na composição da Terra - o conceito estaria por trás da chegada do carbono, nitrogênio, água e aminoácidos que são vitais para a vida no planeta.

Dois anos atrás, Willboald e uma equipe das universidades de Bristol e Oxford examinaram algumas rochas da Groenlândia que datavam do período em que o manto da Terra foi atingido por meteoritos.

O objetivo dos pesquisadores não era avaliar a concentração de ouro nas rochas de 4,4 bilhões de anos, mas a de tungstênio (um outro tipo de metal). Esse metal tem semelhanças com o ouro, mas existe em diferentes formas de isótopos, o que fornece aos cientistas maior informação histórica.

'Verificamos que a composição isotópica do tungstênio dessas rochas é bem diferente da de outras', afirmou Willbold.

Ele diz que as rochas da Groenlândia analisadas são remanescentes da composição da Terra anterior ao começo da chuva de meteoritos, que deve ter acontecido, segundo cientistas, entre 4,4 bilhões e 3,8 bilhões de anos atrás.

O estudo de Willbold, publicado na revista científica Nature em setembro de 2011, fornece a mais completa evidência até hoje sobre como surgiu a composição rochosa da Terra.

Contestação
A teoria, no entanto, não é unânime. No ano passado, Mathieu Touboul e uma equipe da Universidade de Maryland examinaram rochas diferentes, dessa vez vindas da Rússia. Rochas da Groenlândia também foram usadas no estudo, mas eram mais recente (de 2,8 bilhões de anos atrás) do que no experimento de Willbold.

Essas rochas se assemelhavam às analisadas por Willbold em termos de composição. Mas o que intrigou os cientistas é que elas eram posteriores ao período em que se estima ter havido a chuva de meteoritos.

'Chegamos a uma diferente conclusão sobre a geração de anomalias de tungstênio dentro das rochas', diz Touboul. Ele afirma que as diferenças no manto da Terra teriam forçado os isótopos de tungstênio a se desenvolver de diferentes maneiras.

Touboul, no entanto, ainda acredita que a hipótese inicial esteja correta, embora defenda que as medidas dos isótopos de tungstênio não comprovam a tese.

Outros cientistas são mais duros e consideram que a teoria precisa ser rapidamente revisada.

'Eu aceitava a hipótese da chuva de meteoritos quando tínhamos poucos dados para uma interpretação mais consolidada', afirmou Munir Humayun, professor de geologia da Universidade do Estado da Flórida, nos Estados Unidos.

'A tese parecia tão bem construída, mas agora vejo que há muitas lacunas nela. Nós fizemos muitas previsões e sabíamos muito pouco do que aconteceu naquele período', acrescentou.

Humayun faz parte de um pequeno grupo de cientistas que apostam em uma teoria alternativa. A hipótese deles é de que todo o ouro na crosta da Terra - ou a maior parte dele - sempre esteve presente no planeta.

Para esses cientistas, o ouro teria se misturado com o ferro e migrado para o núcleo da Terra, enquanto uma proporção significativa - talvez 0,2% - acabou dissolvida em um 'oceano' de magma a 700 km da superfície.

Posteriormente, o metal teria emergido pela ação vulcânica.

Essa teoria pressupõe que o ouro e outros elementos da mesma família de metais seriam mais solúveis do que se imaginava inicialmente. De outra forma, quantidades insuficientes do metal teriam se dissolvido no magma. Mas por enquanto se trata apenas de uma nova hipótese, ainda não endossada pela maior parte dos cientistas.
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