3 de out. de 2014

Índia comemora chegada a Marte

(Ulisses Capozzoli - Scientific American Brasil) A Índia anunciou, nesta quarta-feira, o sucesso de sua primeira missão a Marte, com objetivo de vasculhar a atmosfera do planeta em busca de possíveis formas de vida.

Que a Índia tenha sido capaz de enviar uma missão com sucesso ao planeta vizinho da Terra não chega a surpreender.

A surpresa, neste caso, é o baixíssimo custo da missão: US$ 74 milhões.

Para efeito de comparação a missão mais recente da Agência Espacial Americana, Nasa, que chegou a Marte na última segunda-feira custou dez vezes mais.

A sonda Mangalyaan (veículo de Marte) já enviou as primeiras imagens do planeta e com isso infla o orgulho das autoridades do país.

A mídia local está comemorando a missão interpretada como “realização histórica” e o jornal Hindu divulgou que a Mangalyaan já enviou cerca de dez fotos que mostram crateras na superfície vermelha de Marte.

O governo diz que as “fotos são de boa qualidade”, ainda que as cópias distribuídas não deem exatamente essa impressão.

De qualquer maneira, essa é a primeira vez que uma missão atinge seu objetivo numa viagem inaugural. Mas, aqui, várias considerações devem ser levadas em conta. Entre elas o fato de, apesar de estar debutando no espaço, a Índia, evidentemente, ter se beneficiado de dados e experiência de outros países para ter sucesso imediato.

A missão robótica levou dez meses para cruzar o espaço que separa Terra e Marte, em torno do Sol, em torno de 200 milhões de km.

Considerando o Sol como referência, a distância Terra/Marte, nos momentos de maior aproximação, é menor que 70 milhões de km.

Para “interceptar” Marte no espaço, girando em torno do Sol, no entanto, uma missão como essa deve percorrer um caminho mais longo.

Até agora, apenas a antiga União Soviética, Estados Unidos e União
Européia haviam enviado uma missão a Marte.

Começaram juntos
O fato significativo é que os programas tanto da Índia, quanto da China e do Brasil começaram no mesmo ano: 1961, estimulados pelo voo do primeiro cosmonauta, o soviético Iuri Gagárin (1934-1968).

Quanto dinheiro foi gasto no programa espacial brasileiro, é uma conta que, até agora, ninguém sabe fazer. Mas não foi pouco.

E, ainda assim, não conseguimos viabilizar nem mesmo um veículo lançador de satélites e esse deve ser motivo para alguma reflexão sobre investimento de recursos públicos, não por um governo, mas por vários governos, incluindo o governo militar.

Burocracia, inoperância e desencontros à parte, o programa espacial brasileiro foi sensivelmente afetado pela decisão dos militares, durante o regime autoritário, de construir uma bomba atômica e desenvolver um míssil capaz de transportá-la para alvos então determinados.

O projeto da bomba atômica foi abandonado no governo Collor com o lançamento de uma simbólica pá de cal num poço para experimentos, cavado na rocha viva, na Serra do Cachimbo, nas profundezas do Brasil Central.

E essa talvez seja uma das poucas memórias positivas daqueles tempos desencontrados.

A situação do programa espacial ficou particularmente complicada com a guerra no Golfo Pérsico, quando o governo brasileiro vendeu mísseis e outros armamentos, como tanques, granada e munição, ao então dirigente iraquiano Saddam Hussein.

Os países do chamado clube espacial vetaram a transferência de tecnologias sensíveis ao Brasil e com isso o programa espacial ficou severamente afetado.

Outro ponto negativo foi o fato de a área militar não ter conseguido viabilizar lançadores mais modestos e que deveriam culminar num foguete capaz de levar em órbita alta (36 mil km) um satélite de comunicações em órbita geoestacionária (um ponto aparentemente fixo sobre a Terra).

A explosão de um foguete na rampa de lançamento no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, em 22 de agosto de 2003, foi outro fracasso que minou autoconfiança e comprometeu cronogramas.

O que o Brasil fez, com comemorações, ingênuas de um lado e suspeitas de outro, foi enviar um astronauta ao espaço.

Brilho efêmero
O astronauta brasileiro teve o brilho de um vagalume e se apagou em seguida. Não por demérito do astronauta em si, o tenente-coronel da FAB, Marcos Pontes, que voou numa missão paga à Rússia, em março de 2006.

A ideia de um astronauta brasileiro apareceu no governo de Fernando Henrique Cardoso para dar ares de modernidade ao país.

Mas país nenhum do mundo desenvolveu um único astronauta e a razão para isso é elementar: se no dia do voo ele tivesse, por exemplo, uma disenteria, a missão estaria condenada.

Daí a necessidade de uma equipe de astronautas, como ocorreu na União Soviética, já com o voo de Gagárin, em abril de 1961.

Pelo menos US$ 30 milhões, em valores não atualizados, foram gastos exclusivamente com o astronauta, que viajou até a Estação Espacial Internacional durante o governo Lula.

O que ocorreu, neste caso, foi apenas mais um episódio de uma queda de braços que volta a se repetir nestas eleições presidenciais: FHC articulou a ideia de um (único) astronauta.

Como o dinheiro já havia sido majoritariamente gasto nos treinamentos do candidato, na Nasa, Lula decidiu mandá-lo para o espaço para não ser rotulado de, digamos, “anticientífico” ainda que os experimentos de Pontes não tenham ido além das clássicas experiências de fazer brotar feijão em algodão embebido em água, usuais no ciclo básico, já à época em que Gagárin circunavegou a Terra.

Além da Índia, que comemora o êxito de sua missão em Marte, a China desenvolveu um complexo programa espacial que incluiu sondas enviadas para a Lua e a colocação em órbita de uma estação espacial chinesa.

Ou seja, dos três países que começaram sua missão espacial no mesmo ano em que Gagárin fascinou o mundo, China e Índia foram em frente e comemoram suas conquistas.

O Brasil continua no solo. As desculpas para justificar a razão de não termos ido em frente são as mais amplas e variadas que se pode imaginar, incluindo razões de natureza geopolítica.

Esse ritmo marca, de alguma maneira, a evolução da ciência no Brasil.

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