12 de jan de 2016

Mundo geek ganha cada vez mais adeptos em Manaus

Do jeito de se vestir às obras literárias do gênero, manauaras ‘dissecam’ e exaltam a cultura nerd.



(D24am) Emos, góticos, punks, otakus, indies, beatniks, greasers, hippies etc. Muitas são as tribos urbanas que marcaram a história do mundo e poucas são as que conseguiram sobreviver com o passar das décadas, ainda que com menos representantes. Mas uma delas, em especial, tem trilhado o caminho inverso: os ‘geeks’.

Essa manifestação social e cultural, surgida nos anos 2000, tem origem inglesa:
a gíria ‘geek’ se refere a pessoas fãs de tecnologia, jogos eletrônicos ou de tabuleiro, histórias em quadrinhos, ficção científica, fantasia, livros, filmes, séries, entre outros elementos, hoje, tão intrínsecos à cultura pop.

Com fortes representantes em diversas mídias — o exemplo máximo é o seriado televisivo estadunidense ‘The Big Bang Theory’ —, os geeks lotam e movimentam a economia, com encontros internacionais como San Diego Comic Con, E3, BlizzCon, ou até nacionais, como a Comic Con Experience.

Mas, se no exterior e no eixo Sul-Sudeste brasileiro, os geeks dominam, a quantas anda o movimento em Manaus? Onde eles se encontram? Como se divertem? O que vestem? Onde compram e abastecem suas estantes? Para responder a essas e outras perguntas, somente especialistas como a ‘elfa’ Juçara Menezes, a ‘maga’ Priscila Verçosa, o ‘anão’ John Silva e o ‘ladino’ Anderson Silva.

'Alohomora’ na literatura fantástica
A professora de português Priscila Verçosa, de 24 anos, pode até não usar óculos de grau redondinhos inspirados nos de Harry Potter, como Juçara, mas seu amor pela literatura fantástica vai muito além e, como era de se esperar, começou juntamente com seu amor pela saga do jovem bruxo.

“Li o primeiro HP (abreviação da série Harry Potter) aos 10 anos e, desde então, não parei mais. Li a trilogia ‘Fronteiras do Universo’, ‘As Brumas de Avalon’, ‘O Senhor dos Anéis’, ‘Percy Jackson e Os Olimpianos’, a saga ‘The Witcher’, ‘Jonathan Strange & Mr. Norrell’, ‘As Crônicas de Gelo e Fogo’, li a saga de ‘Eragon’, ‘As Crônicas de Nárnia’, entre outros, e, nos intervalos, relia Harry Potter”, disse Priscila, já deixando suas dicas para aqueles que queiram se iniciar no vasto mundo da literatura permeado por feitiços, dragões, bruxos, maldições, druidas, monstros e demais seres fantásticos.

Ainda que um pouco fora dos padrões ‘geek de raíz’, Priscila também tem sua coleção de camisetas nerds, mas nada que tire sua essência ou que predomine no seu guarda-roupa. “Gosto de aliar elementos da cultura geek às roupas tidas como normais. Não abro mão de um short ou de um vestido jeans, de jaquetas legais ou de outras peças mais ‘da moda’, digamos”, comentou ela, que, durante a entrevista, vestia uma blusa alongada preta, da marca Korova, com o rosto de Tyrion Lannister — personagem de ‘Game of Thrones’ — estampado, um short jeans Riachuelo e tênis Adidas Original glitterizado.

Para ela, ler é uma atividade essencialmente individual, portanto, assim ela o faz. “Nunca fui muito de participar de clubes de livro ou de encontro de fãs. Já tentei, mas não fui feita para essas coisas. No máximo, discuto com meus amigos sobre um livro, série ou filme, enquanto jogamos algo e lanchamos em casa. Sou um pouco antissocial, então, às vezes, o debate fica só no WhatsApp mesmo”, brincou.

Sobre sua coleção de livros, que ultrapassa os 300 títulos, nem todos de fantasia, Priscila lamenta: “ela deu uma estagnada. O espaço está acabando e a crise não ajuda. A solução é partir para os livros digitais e, na mídia física, comprar apenas aquelas edições que valem muito a pena, como o último box de HP que reúne a série completa”.

O lado baré da força
Amante de ficção científica, a jornalista Juçara Menezes, de 36 anos, conta que a paixão pelo cosmos começou na infância, com ‘Star Wars’. Fosse alugando em VHS ou assistindo na Sessão da Tarde, Juçara lembra-se de ver os episódios IV, V e VI da franquia exaustivamente. “Isso acabou me moldando um pouco. Não era uma criança muito comum. Enquanto as outras meninas brincavam de Barbie, eu me divertia com a boneca da princesa Lea e com a máscara do Darth Vader. Eu cresci e a paixão permaneceu”, conta ela.

Com o tempo, a paixão passou por uma evolução natural e se expandiu para outras obras da ficção científica. Hoje, segundo ela, até já tem um pé na física e na astronomia. “Por causa de ‘Star Wars’, hoje, leio obras de autores consagrados da ficção científica, como ‘Fundação’, do Isaac Asimov, ou da astrofísica, como ‘Uma breve história do tempo’, do Stephen Hawking”, disse a jornalista.

Àqueles que queiram começar na literatura de ficção científica, Juçara recomenda: “comece pelos mais simples, como os livros do universo expandido de Star Wars, e vá evoluindo para obras mais complexas”, comentou ela, que também atua como vice-presidente do Conselho Jedi do Amazonas.

O comércio contra-ataca
Se trabalhar e gastar dinheiro com aquilo que você gosta já é legal, imagina trabalhar e ganhar dinheiro com o que você ama. Esse é o caso do designer gráfico e ilustrador Anderson Silva, de 28 anos, e do designer de jogos e empresário John Silva, de 27. Obviamente que, mesmo com tais benefícios, o trabalho não deixa de ser um desafio diário.

“Confesso que trabalhar com arte e cultura pop é um desafio em nosso País, falta apoio e reconhecimento pelo nosso trabalho. Atualmente, não consigo viver totalmente de ilustração, mas fico bastante feliz por parte da minha renda vir deste trabalho. Espero, um dia, poder iniciar um estúdio de arte e design focado em cultura pop e viver exclusivamente dele”, comentou Anderson, cujo interesse por ilustração surgiu das histórias em quadrinhos lidas quando adolescente.

Fã de personagens como Batman, Justiceiro e Constantine, da série ‘Hellblazer’, Anderson recomenda aos novos leitores começar a ler quadrinhos pelas minisséries e edições especiais, de preferência, as clássicas dos anos 1980 e 1990.

“Através delas você poderá conhecer melhor os personagens e entendê-los. Depois, se for de seu agrado, poderá acompanhar as edições quinzenais e mensais. Não devemos nos limitar em Marvel e DC, tem outros selos tão bons quantos esses — Vertigo por exemplo. As HQS brasileiras valem muito a pena serem conferidas também”, sugeriu ele, que, para isso, recomenda uma checada nas livrarias Saraiva, do Manauara Shopping, e Leitura, do Amazonas Shopping.

Além de consumir, Anderson, como artista gráfico, concebe produtos geeks, traduzindo, assim, sua ‘nerdice’ em forma de arte. “Crio séries ilustradas que, depois, se transformam em produtos como camisetas, almofadas, canecas e pôsteres que são comercializados em lojas especializadas na internet. Algumas camisetas são lançadas pela Camiseteria UsoGeek, aqui de Manaus, por exemplo”, explicou.

Para os que querem compartilhar do seu interesse por quadrinhos, Anderson recomenda a House 137, estúdio e escola relacionado a quadrinhos, e o blog de notícias MapinguaNerd, que foca diretamente nos acontecimentos nerds de Manaus.

Diversão e negócios
Bem-sucedido ao tornar sua paixão em profissão, John, proprietário da camiseteria Uso Geek, conta que um dos maiores prazeres da vida é encontrar, na rua, um desconhecido usando uma camiseta de sua loja, ou, ainda, usá-las e ser parado na rua. “As pessoas as acham engraçadas e descoladas e perguntam onde eu as comprei. Aproveito e, sem perder tempo, apresento o cartão da loja”, brincou.

Dividindo a vida entre empresário e designer de jogos, John lembra que começou a se interessar pelo meio ainda pequeno e que o gosto renasceu na fase adulta. “Desenhava muito quando criança e adolescente. Já adulto, quando comecei nesse ramo de design há alguns anos, a ilustração se fez presente novamente. Percebi que o público geek e nerd de Manaus estava crescendo. Juntei-me ao meu amigo José Maria, que apoiou a ideia de abrirmos uma empresa no ramo, e lá se vão três anos de Uso Geek”, disse ele.

Cocriador de jogos mobile como ‘Paddle Man’, ‘Vikings Falls’, ‘CocoBird’, ‘Colourful’, ‘Canoeiro Baré’ 1 e 2, ‘Fábrica de Robôs’, ‘Fly Kid’ e ‘Mucura Away’, a maioria já publicado na Google Play, John já está bem à vontade com o tema, mas, para os desenvolvedores iniciantes e curiosos da área, ele recomenda quatro obras indispensáveis: os filmes’ Indie Game: The movie’ e ‘Atari: Game Over’, e os livros’ Level Up’ e ‘1001 Video Games You Need To Play Before You Die’.

Diferente da literatura, o mundo dos games pode ser algo nada individualista, seja de forma cooperativa ou competitiva. E se você quer sair do sofá ou do online, para curtir uma noite com boa comida e excelentes jogos, a hamburgeria Dungeons & Burger é o lugar certo.

“Hoje, as redes sociais e os grupos ajudam muito nessa questão da integração entre os jogadores. Conheço vários grupos de jogadores e mais especificamente de desenvolvedores e, geralmente, o nosso ponto de encontro é na hambugeria D&B, onde a galera joga board e card games como ‘ZumbiCide’ e ‘Black Stories 2’”, concluiu ele.

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