17 de fev de 2016

Laboratório no Sul de Minas é considerado referência na astronomia do Brasil

Laboratório Nacional de Astrofísica completa 30 anos e tem história registrada pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins




(Estado de Minas) Inaugurado há 30 anos, o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) e seus telescópios, incluindo o pioneiro telescópio de 1,60 metro de abertura, de 1981, entregue aos astrônomos ainda na época do Observatório Astrofísico Brasileiro (OAB), foram responsáveis pela formação de boa parte das gerações seguintes de astrofísicos no Brasil, profissionais que ainda hoje estão em atividade. Com o objetivo de tornar o LNA conhecido também pelos não especialistas, sua história foi registrada por uma equipe de pesquisadores do Museu de Astronomia e Ciências Afins (do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), entre eles a historiadora Christina Barboza.

Disponível para download gratuito, o livro Da Serra da Mantiqueira às montanhas do Havaí relata as origens do LNA desde sua concepção, quando ainda era chamado Observatório Astrofísico Brasileiro. “Na versão que acabou se impondo a partir dos relatos dos astrônomos, o marco zero dessa história foi a indicação de uma dúzia de potenciais picos propícios à construção do futuro observatório, lista formulada a partir do trabalho de três astrônomos franceses trazidos ao Brasil no início de 1964”, explica Christina. Ocorre que, para alguns astrônomos brasileiros, os locais apontados pelos franceses não eram apropriados.

Os trabalhos em busca de um lugar adequado continuaram, e só apresentaram resultados em 1969, quando estudos apontaram para os picos situados na Serra da Mantiqueira, mais precisamente a parte situada no Sul do estado de Minas Gerais. “A escolha de sítio de um observatório envolve um processo complexo de análise, que abrange desde os dados meteorológicos – que na época ainda eram inexistentes para boa parte do território brasileiro – até questões de infraestrutura, fora o contato e as negociações com os políticos locais”, relata a historiadora.

Christina conta que os astrônomos envolvidos na escolha do local nem sequer dispunham de um bom mapa topográfico da região investigada, com a resolução necessária, e por isso usavam um da força aérea americana. O local escolhido para instalar o observatório foi o Pico dos Dias, a 1.864 metros de altitude, localizado na cidade mineira de Brasópolis, no Sul do estado. Além do local, era preciso definir qual telescópio integraria o observatório. Nessa etapa, o maior desafio não foi optar pelo refletor Perkin-Elmer de 1,60 metro de abertura, mas conseguir os recursos necessários para adquiri-lo e fazer as obras civis necessárias, cerca de US$ 2 milhões. O dinheiro foi obtido por meio de convênio assinado com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Esse processo consumiu todo o ano de 1972.

Ainda assim, a construção do telescópio e da sua cúpula, nos Estados Unidos, levou alguns anos, e ambos só ficaram prontos em meados da década de 1970. Finalmente, mesmo depois de escolhido o local e comprado o instrumento, ainda era necessário desapropriar os terrenos da região, abrir uma estrada de acesso, fazer a instalação da infraestrutura (elétrica, telefônica, entre outras) e construir o edifício em si. “Tudo isso junto envolveu recursos, burocracia e, de fato, acabou consumindo muito tempo, pelo menos toda a segunda metade da década de 1970”, conta Christina. O espaço foi batizado, então, como Observatório do Pico dos Dias (OPD).

Nascido como Observatório Astrofísico Brasileiro, em fevereiro de 1981, ao longo dos anos o Laboratório Nacional de Astrofísica, com sede em Itajubá, passou por várias mudanças. A historiadora destaca três marcos principais, começando pela separação entre o OAB e o Observatório Nacional, instituição a que era subordinado. Isso porque, em sua concepção original, o OAB deveria constituir-se em laboratório nacional, o que implicava estar aberto aos astrônomos de diferentes instituições brasileiras. Sua vinculação ao Observatório Nacional passou a ser vista como um entrave à proposta original, o que motivou a separação definitiva em 1989.

Um segundo momento importante da história do LNA foi o redirecionamento dos investimentos brasileiros, que passou da construção e aquisição de telescópios para o ingresso em consórcios internacionais, como o Gemini (1993) – constituído por dois telescópios com 8,1 metros de abertura, um no Havaí (Estados Unidos) e outro no Chile –, o Soar (1999) – cujo aparelho tem 4,1 metros de abertura e também está situado no Chile – e o Canada-France-Hawaii Telescope (2008) – telescópio com 3,6 metros de abertura, localizado no Havaí. “Essas parcerias permitiram não apenas a ampliação do acesso dos astrônomos brasileiros a telescópios mais modernos e potentes do que aqueles que o país teria conseguido construir ou adquirir sozinho, como também o estabelecimento de um intercâmbio com profissionais de outros países, fundamental na pesquisa científica”, explica Christina.

A terceira mudança principal no LNA é mais recente, e se caracteriza pela aposta no desenvolvimento instrumental. Assim, em parceria com outras instituições nacionais, os engenheiros e astrônomos do LNA já projetaram e construíram instrumentos periféricos (que se acoplam aos telescópios) destinados aos consórcios de que participa. A partir dos estudos feitos para escrever o livro, Christina Barboza conclui que o LNA não só deu o pontapé inicial na formação de pessoal qualificado na área, mas até hoje desempenha papel importante na atuação de vários desses profissionais.
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