30 de mar de 2016

Thaisa Storchi Bergmann, astrofísica: 'Ciência é lógica; fé não tem lógica'

Especialista em buracos negros de galáxias ativas, cientista esteve no Rio a convite do Observatório Nacional para aula inaugural do curso de Astronomia e Astrofísica


(O Globo) "Nasci em Caxias do Sul (RS). Estudei Arquitetura, mas minha paixão era outra. Hoje, eu estudo as galáxias ativas, que têm centro muito brilhante, que têm muita matéria sendo capturada. A Via Láctea não é ativa. Tem o buraco no centro, mas ele captura pouca matéria, e só é visível porque está muito perto da gente."

Conte algo que não sei.
Os buracos negros dentro das galáxias ativas são os geradores de energia mais eficientes do Universo. É como se fossem uma hidrelétrica, o disco funciona como uma turbina. A eficiência máxima seria transformar 100% da matéria em energia. O buraco negro, tipicamente, transforma 10% da matéria em energia. Mas é muito mais eficiente do que o Sol, que só transforma 0,7% da matéria em energia, em um processo, a fusão nuclear, que ainda não dominamos.

Qual é o destino dos 90% restantes de matéria que entram no buraco negro?
Caem lá dentro (risos). Ficam no horizonte de eventos, que é a tradução de nossa ignorância. Sabemos que tudo está muito comprimido.

Pode ser a reprodução da origem de tudo?
Pois é, quem sabe? Mas não sabemos. Não temos acesso ao que tem lá dentro, mas sabemos que há gravidade, portanto, existe matéria. É o auge da concentração da matéria.

Por que a ciência faz procuras tão abstratas, como energia escura e matéria escura?
Porque tentamos explicar o Universo e a sua expansão. Neste caso, buscamos reproduzir o movimento das estrelas nas galáxias. E concluímos que a contagem de matéria visível não bate com a gravidade, que é maior. Há muita gravidade, existe muita matéria, mas não se consegue ver.

E como ter certeza que o invisível é matéria?
Não temos outra alternativa, que não seja a matéria, dentro da física que conhecemos. Alguns propõem uma teoria na qual a gravidade em escala de galáxias é diferente.

Defendem, então, que a Lei de Newton (da gravidade) não opera nesta escala?
Sim, esta teoria diz que a gravidade se estende mais do que estamos acostumados. Eles utilizam outro fator para explicar o que a física não consegue explicar. Mas não funciona, por exemplo, para calcular a massa de galáxias muito distantes que observamos por meio da chamada lente gravitacional, identificada por Einstein, que é fundamental.

Se a gravidade atrai, e o Universo se expande, qual força o expande?
A teoria mais aceita é a de que o espaço do Universo tem energia. Existe uma densidade de energia do espaço, que comprova que existe energia no vácuo. Mas ainda são experimentos. Se o volume aumenta, a energia aumenta. Esta é a energia escura. Apesar de a gente não entendê-la bem, ela perfaz 70% da energia do Universo.

E como não pensar em vida fora da Terra?
É plausível. Por que não outro planeta, de outra estrela, pudesse dar origem à vida? A dificuldade fundamental é o tamanho do Universo. Digamos que exista outra civilização a dez mil anos-luz de distância. Mesmo com um sinal muito forte, só vai chegar em dez mil anos.

E como fica Deus?
É outro plano. Ciência é lógica; fé não tem lógica. Eu não sei responder por que surgiu o Universo. A ciência explica como, não explica por quê. Temos que ser um pouco religiosos no sentido de que não há todas as respostas. Por que surgiu a vida? Isto é algo muito fascinante. Eu não vejo aquele Deus bonzinho, mas tenho a humildade de reconhecer que não tenho todas as respostas. Isto também faz parte da nossa ignorância.

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