29 de out de 2015

A Glória das Estrelas canta a Glória do seu Criador

(Luxemburger Wort) “Listen, there’s a hell of a good universe next door; let’s go!” (“Escuta, há um espantoso universo bom na porta ao lado; vamo-nos.” É uma das citações mais conhecidas de e. e. cummings). Não é menos famoso quem, mais de cem anos antes, já se sentira fascinado pelo “good universe next door”: o Papa Leão XIII funda o Observatório Vaticano, em 1891, o mesmo ano da publicação da “Rerum Novarum”, o primeiro grande documento social da Igreja, a encíclica que os trabalhistas britânicos adoptam como fonte inspiradora.

Fé e Astronomia é uma lição da Igreja Católica. Em 29 de Setembro de 1953, o Papa Pio XI cedeu novas instalações ao Observatório Vaticano, em Castel Gandolfo. Aí se iniciaram as celebrações do octogésimo aniversário, que terminaram, como previsto, numa audiência privada com o Papa Francisco, em Roma. No final, este trocou olhares com Guy Consolmagno (G. C.), sorriu e disse: “Ah! O novo director”.

Astronomia é uma profissão que dá alegria, diz G.C., depois de tomar posse, e pretendo divertir-me com este trabalho.

Quando Leão XIII criou o Observatório Astronómico, em 1891, foi para que “o mundo pudesse ver claramente” como a Igreja se interessa pela boa ciência. Evidente que é essencial fazer boa ciência. Aliás, não teríamos nada para mostrar. “Mostrar” é também essencial, acrescenta G.C.

Para além da Astronomia de Observatório, contempla o novo director não interromper as actividades de informação a que também se dedicou nos últimos 20 anos: programas aplicados à educação, e outros, ao público em geral. “Fé e Astronomia” é um tema proposto nas paróquias, no ensino superior, assim como na “bloc page” do Astrónomo Católico. Um dos encontros mais cativantes foi a Convenção Mundial da Ficção Científica. A sua ideia é estudar a Astronomia e colocá-la num contexto humano, observa G.C.

Não foi uma estrela que nos levou a Cristo?

O Mundo e os Universos Bons ao lado são espaços e tempos sem limite. Sempre com o homem. Mas, como já dizia Plutarco, “o homem de ontem morreu no de hoje, o de hoje morre no de amanhã”.

Já rapsodos atenienses rejeitaram os traços antropomórficos dos seus deuses e propuseram um só Deus, que seria uma esfera eterna. Lê-se, em Platão, que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme, porque todos os pontos da superfície equidistram do centro. No “Corpus Hermeticum” do séc. III, onde todo o saber ficou guardado, o teólogo francês Alain de Lille descobriu, no séc. XII, esta fórmula que não seria mais esquecida: “Deus é uma esfera inteligível, cujo centro está em todas as partes, e a circunferência em parte nenhuma”. Linda metáfora geométrica.

Para um espírito medieval, Deus está em cada uma das partes das suas criaturas, mas nenhuma O pode limitar. “O céu, o céu dos céus, não te contém”, diz Salomão (I Reis, 8, 27).

Coleridge, Oscar Wilde e Jorge Luis Borges, entre outros, quiseram explicar o sentido ecuménico, impessoal, das grandes obras literárias, como se “fossem episódios ou fragmentos de um só poema infinito, erigido por todos os poetas do mundo” (Emerson, 1821). Não serão antes um mundo estelar, dentro da grande Esfera de Pascal, acessível aos natos com uma chave mística na alma?

Todo este deambular astronómico requer em nós uma profunda convicção de humildade.

O homem, feito de espaço e tempo, é limitado. Mas não o seu sonho. Pode olhar para o Sol e e as Estrelas. E não poderá ajustar, de maneira humana, a crise das migrações? Cada um de nós pode ser um Universo Bom, vizinho do outro.

Permitam-me concluir com Jorge Luis Borges: “Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronómico, são desesperos aparentes e tristes confortos. … O tempo é a substância de que somos feitos. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio”.

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