18 de dez de 2015

Conheça a mulher que levou a língua portuguesa até o espaço interestelar

Janet Sternberg é norte-americana, mas foi escolhida para gravar a mensagem em português que viaja nas missões Voyager para os lugares mais distantes do universo. E garante: não tem medo de extraterrestres



(Galileu) Apesar de Janet Sternberg não ser nativa do Brasil nem de nenhum outro país colonizado por Portugal, foi a voz dela que levou a língua portuguesa até o espaço interestelar. Em 1977, Janet foi convidada por uma equipe chefiada pelo astrônomo Carl Sagan para pensar em uma saudação que seria enviada para fora do Sistema Solar. Gravada em um disco de cobre banhado a ouro, a mensagem viajaria eternamente pelo cosmos com as duas naves Voyager, lançadas pela Nasa em 1977. É como um náufrago que manda um bilhete dentro de uma garrafa pelos oceanos. A linguista deveria escolher uma frase que representasse toda a comunidade lusófona do planeta Terra, estimada em cerca de 250 milhões de pessoas espalhadas por nove países. Diante de uma tarefa tão ingrata, Janet decidiu pensar em algo que simbolizasse o lugar que a viu crescer — o Brasil. Para ela, os dizeres que melhor nos representavam eram: “Paz e felicidade a todos.”

Nascida em Nova York, ainda criança mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde aprendeu a falar fluentemente o português. Voltou aos Estados Unidos com 13 anos e, em 1975, ingressou no Departamento de Línguas da Universidade Cornell para cursar pós-graduação. Foi ali que, dois anos mais tarde, Sagan e sua equipe recrutaram às pressas cerca de 40 pesquisadores para gravar 55 saudações em línguas diferentes, arcaicas e modernas, para compor a cápsula do tempo cósmica batizada de Golden Record. Em entrevista a GALILEU, Janet Sternberg conta como foi o processo de recrutamento, o dia da gravação, relata como era sua relação com as outras “vozes” do projeto e também com Carl Sagan, que na época era um “João Ninguém”. Ela explica ainda o porquê da frase “Paz e felicidade a todos”, além de descartar a possibilidade de uma civilização alienígena chegar a interceptar as naves e os discos. A seguir, os principais trechos do bate-papo.

A senhora é norte-americana. Como aprendeu a falar português?
Ninguém da minha família é do Brasil, todo mundo é de Nova York. Por motivos pessoais, meu pai resolveu levar a família para morar no Rio de Janeiro. Foi assim que aprendi a falar bem o português — inclusive o sotaque, porque peguei quando criança. Voltamos para os Estados Unidos quando eu tinha 13 anos. Foi só muitos anos depois que comecei a estudar linguística e reativei meu português, já na Universidade Cornell. Estava ensinando português e estudando linguística das línguas românicas — português, espanhol, francês. Foi nessa época que fizeram essas gravações.

A senhora tomou conhecimento do projeto da Golden Record quando estava em Cornell. Pode contar como soube e de onde surgiu seu interesse em participar?
Era um departamento de línguas muito grande em comparação com o de outras universidades, ensinava algo como 20 ou 25 línguas diferentes, inclusive as exóticas. As outras instituições talvez ensinassem cinco ou dez línguas. E, por acaso, o astrônomo Carl Sagan era o chefe da equipe do projeto Golden Record, que é apenas uma parte da missão das Voyagers. Aliás, a mensagem foi uma ideia que acrescentaram ao projeto. Um dos cientistas falou: “Vamos, então, fazer uma espécie de mensagem na garrafa”. E foi aí que a equipe de Carl Sagan começou a trabalhar no Golden Record, em 1977. Há um livro chamado Murmurs of Earth (Murmúrios da Terra, em tradução livre) no qual a equipe conta essa história. Eles estavam com pressa para fazer essa gravação, e decidiram mandar imagens, músicas, falas de personalidades famosas. Então resolveram convidar pessoas que representassem tantas línguas quantas fossem possíveis. Pessoas normais, que não fossem famosas nem celebridades, simplesmente para gravar saudações ao universo.

Como as pessoas foram recrutadas para o projeto?
Era 1977, não havia internet, mal tinha computador. Pessoas normais usavam o correio e telefone. A equipe de Sagan ligou para o departamento de línguas, e a secretária pegou uma lista de todo mundo que ensinava todas as línguas. Escolheram aqueles cuja pronúncia fosse melhor, o que chamamos na linguística de nativo. Eles me convidaram para representar o português — e também chamaram uma série de outras pessoas. Não são 55 pessoas, são 55 mensagens em línguas diferentes. Com relação às línguas clássicas, por exemplo, acho que algumas pessoas fizeram mais de uma gravação. Em uma certa tarde, recebi um telefonema explicando sobre a existência de um projeto de Carl Sagan, um professor de astronomia que, naquela época, era um “João Ninguém”. Eles queriam que eu aparecesse em tal lugar às 9 da manhã para realizar um projeto especial. No dia seguinte, fui ao local e dei de cara com muitos colegas e com vários outros que eu não conhecia.

E a senhora já sabia da importância da missão?
Ninguém sabia o que era. Aí falaram que estávamos lá cada um representando a sua língua. A língua não, o país. Eu estava representando todos os lusófonos, não só o Brasil como também Portugal, Macau, Angola, Moçambique, Goa. Disseram que estávamos lá para gravar saudações para o universo. Devíamos ser breves, gravar um cumprimento do planeta Terra. Quando saímos da cabine, nos pediram para escrever o que falamos e a tradução — então, obviamente, não podia falar besteira. É importante lembrar que, naquele tempo, não se sabia nem se iriam completar os discos, nem se iriam completar as Voyagers, nem se haveria o lançamento. Hoje, mais de 30 anos depois, olhamos para a missão e dizemos “uau, as Voyagers duraram esse tempo todo sem nenhuma manutenção, sem mão humana”. Quantas máquinas conhecemos no mundo que funcionam depois de tantos anos sem nenhuma limpezinha, óleo, nada?

Qual é a reação das pessoas quando a senhora diz que participou do projeto?
Muito raramente vejo pessoas que acham que essa missão foi um erro, que estamos entregando o nosso lugar, que agora os extraterrestres vêm atacar a gente. Isso não me parece razoável. Penso que seja mais uma questão de que, realmente, jogamos uma garrafa no mar com uma mensagem. Sou dos anos 1970, da época da Guerra do Vietnã nos Estados Unidos, então, para mim, a ideia de paz e felicidade não é só uma coisa do português: faz parte também da minha época e da minha história pessoal. O que é interessante é que cada uma das mensagens era diferente das outras. Algumas pessoas se confundem e pensam que todas diziam “Paz e felicidade a todos”, mas não. A mulher que falou um dos vários dialetos chineses disse: “Você já comeu arroz hoje?”. Não é porque ela quis falar do arroz, e sim porque esse é o cumprimento típico na China, como o “Como vai você?”.

A senhora acredita que existe uma possibilidade de alienígenas interceptarem as Voyagers e ouvirem o disco?
Nunca me preocupei com os extraterrestres. Tem gente que me pergunta se eu não fico aflita pensando que os extraterrestres vão vir me procurar por causa da minha voz. A minha única preocupação era com relação ao que os outros terráqueos iam pensar daquilo, ao que os brasileiros iam pensar, os portugueses, as pessoas que eu estava representando. Fiquei pensando em uma das coisas das quais os indivíduos se orgulham, pelo menos no Brasil, que eu saiba, e talvez nas outras culturas de língua portuguesa, que é a paz. Eu não nasci ontem, sei que Portugal tem uma história de colonização bastante violenta, guerras em Angola... Mas gostaríamos de ter paz, nós nos imaginamos como pessoas de paz. Acho que o Brasil se orgulha disso, apesar de ter sido violento com os índios e com outras minorias.

Chegou a conversar pessoalmente com Carl Sagan?
Não. Primeiro porque era verão nos Estados Unidos, a universidade não estava em aula. E ele não trabalhou diretamente na parte das saudações. Foi uma mulher da equipe quem participou. Ele estava lidando com as pessoas acima e com seus pares. Até acho engraçado, porque muita gente imagina que ele estava em todo lugar, fazendo tudo, mas era uma missão bem complexa.

A Voyager 1 saiu oficialmente do Sistema Solar em 2013. Como a senhora se sente sendo um dos pouquíssimos seres humanos a ter a própria voz viajando pelo espaço interestelar?
É uma sensação de ter feito uma coisa muito única. Algo que pouquíssimas pessoas fizeram, e uma experiência que dificilmente pode ser repetida — se bem que existe algum projeto de mandar novas mensagens, mas nunca será igual a esse. Tenho muitos colegas que gostam de ficção científica, que inclusive já escreveram romances de ficção científica, e eu não gosto. Sempre digo que a minha ficção foi realidade, já sou interestelar e não preciso ler livros sobre pessoas que vão para o espaço porque já estou lá. Não faz meu gênero, gosto de outras coisas, mais de detetives do que de coisas do espaço. Porém, isso me faz rir um pouco, porque a Nasa é uma entidade norte-americana, mas eles tentam ser muito internacionais, e gosto disso.

Se a saudação fosse gravada hoje, a senhora mandaria a mesma mensagem ao universo?
É difícil, teria primeiro de imaginar que não gravei a outra — porque se fosse gravar de novo sabendo que já tinha feito, gravaria a mesma coisa porque deu certo. Se você me pegasse num dia pessimista, talvez hoje eu dissesse algo do tipo: “Fica longe, não vem para cá porque temos uma mania de destruir tudo aquilo em que tocamos. Se você estiver a caminho daqui, pega uma direita e vai para outro planeta, pois aqui só fazemos bagunça”.

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